Por Luis Mendonça Espinha
Excerto do portefólio, do R. V. C. C. do secundário, concluído a 8 de Outubro de 2009, através do C. N. O. da Escola Secundária, Engenheiro Calazans Duarte, na Marinha Grande.
E tudo começou a 9 de Fevereiro, de 1963, algures numa colónia ultramarina…
Do que não me lembro e por isso não me conheço, desse tempo ficam apenas algumas dicas do percurso que fiz ao colo dos meus pais, que haviam contraído matrimónio em 1961, no lugar de Palanca, uma pequena povoação a sudoeste de Sá da Bandeira, hoje denominada de Lubango.
Huíla, (e já nesse tempo as populações indígenas denominavam a cidade como Huíla ou Lubango, enquanto que os colonos portugueses chamavam Huíla como nome do distrito).
Entretanto, o meu pai foi colocado em Nova Lisboa, actual Huambo, também aqui adoptariam o nome da província para nome da cidade.
O meu pai era polícia nessa altura, mas só “conseguiu” ser polícia durante 4 anos. Entretanto rebenta a chamada guerra colonial em 1961 e em 1963 nasce aquele que hoje escreve, o primogénito. Eu fui um bebé doente, o que obrigava a grandes deslocações dos meus pais à capital da província (Luanda) para consultas médicas. Esta situação associada a um baixo rendimento, levou a que o meu pai optasse por abandonar a polícia e passasse a ser comerciante em Sá da Bandeira. Estamos em 1965 e entretanto, nasce o meu primeiro irmão. A guerra continua lá longe no Norte e Leste de Angola e eu já tinha 2 anos de idade.
Damos agora um salto no tempo e avançamos até à idade dos meus 6/7 anos, que me parece ser a idade que a minha memória alcança e que me permite lembrar que tinha um elemento masculino na família que tinha uma forma de brincar comigo que eu não apreciava especialmente, pois ele puxava-me os cabelos, para me chatear. Só mais tarde, muito mais tarde, consegui associar às minhas recordações quem era essa pessoa que eu “nunca quis” memorizar, através de uma conversa em família, na qual eu abordei este assunto. Não deixei de vociferar contra o tio, que afinal até é um bom rapaz!
Do tempo dos primeiros passos na escola, uma escola primária que se situava muito perto de minha casa, recordo com muita saudade o meu “primeiro amor”. Menina alta e muito, mas mesmo, muito magra, a Isabel…acreditem que eu me lembro de lhe afagar o cabelo embevecido com a sua anuência. Ainda neste período e nesta escola aconteceu algo de trágico. Morreu alguém da escola, não me recordo quem, mas que morava perto da escola e que os mais velhos não me deixaram ver o defunto.
Esta escola ficava num topo da praça Luís de Camões, ficando a minha casa no topo oposto. Numa lateral era o liceu e na lateral oposta havia sido construída recentemente uma igreja, onde eu frequentava a catequese. Foi ainda neste tempo que os meus pais e os meus tios e ainda um primo deles, tinham o hábito de se reunir em família numa quarta-feira por mês, alternadamente em casa de cada um, onde as senhoras se entretinham com a conversa e a fazer malhas e croché, as crianças brincavam com os últimos brinquedos que o anfitrião tinha recebido e os homens jogavam à sueca, comiam caju, palitos salgados e bebiam whisky com 7up. Eram serões muito agradáveis, em que o tempo voava, ficando sempre a pena de termos de ir embora. Mas, mesmo inesquecível, era a ida ao futebol ao domingo para ver o Sporting de Sá da Bandeira jogar. Eu, agarrado ao meu pai, qual siamês agarrado à sua progenitora, mas sentados numa Kawasaki 50, com os meus curtos braços, esforçava-me para não cair da motorizada, tentando abraçar a barriga ( já proeminente) do meu pai. Numa destas viagens a coisa correu mal, pois escapou-se-me um pé do estribo e encostei a perna ao escape. Foi cicatriz que levou alguns anos a desaparecer.
Lembro-me de mim como uma criança engenhosa, com grande imaginação na construção de brinquedos, mas algo introvertida. Dos meus 9/10 anos não me lembro de nenhum colega de escola, a não ser da minha “amada” Isabel, nem me lembro de brincar com o meu irmão que tinha apenas menos dois anos que eu, com excepção para os jogos de hóquei sem patins que jogávamos os dois num pequeno espaço cimentado que não tinha mais de dois metros quadrados. As balizas eram a porta de casa e o portão do muro que circundava a casa. Estranho….talvez!
Mas lembro-me perfeitamente dos meus primeiros negócios a sério. Tínhamos sempre muitos pés de couve plantados no quintal, que era todo murado, onde havia também árvores de fruto. Então, vendíamos folhas de couve, 100% frescas, pois eram colhidas no momento conforme o cliente pedia. As mulheres negras, de passagem pela rua, chamavam por alguém, dizendo algo com esta leitura sonora: «Tchindêrê» que penso querer dizer «branco ?». Eu perguntava-lhes que quantidade queriam de couve, e já nessa altura existia aquilo a que chamamos hoje de inflação, pois se a época era de pouca couve, levavam menos pelo mesmo dinheiro, que variava entre um angolar e um angolar e cinquenta centavos, o molho.
Agora falarei do João! Quem foi o João?
O João foi o irmão mais velho que eu não tive, e talvez por isso não brincasse muito com os meus irmãos que eram mais novos!?
O João era um rapaz mulato, que trabalhava para os meus pais. Alto, espadaúdo, bonito até! Não sei qual a sua origem, sei apenas que de “criado” tinha pouco, pois comungava da nossa mesa, os meus pais obrigaram-no a estudar, vestiam-no e calçavam e era muito meu amigo. O senão da história é que ele tinha um quarto só para ele, mas era nos anexos da casa. Que pena hoje tenho de fazer parte de uma geração, descendente de outra que já naquele tempo começava a apregoar a igualdade, mas que hipocritamente metia os “Joões” no anexo e hoje continua a metê-los nos contentores. O João chorou algumas vezes a conversar comigo, mas a minha capacidade de compreendê-lo ainda não era suficiente para absorver e ajudá-lo nas piores horas. Ele não era, nem nunca foi, maltratado, usava de toda a liberdade nas horas em que não havia trabalho, que no fundo também não matava. Tratava dos animais, da horta, do pomar e fazia alguns recados. O João tinha apenas 16 anos, quando eu fiz 10 anos. E certo dia chegou a casa, já noite dentro após o seu passeio, todo marcado e com uma ferida na cabeça. Tinha-se metido em sarilhos! Fomos com ele para o hospital e, desde então, o João tornou-se uma pessoa muito fechada. Lembro-me de a minha mãe tentar conversar com ele, mas era difícil. Nunca soubemos o que aconteceu. Entretanto decorria o ano de 1972 e a profissão do meu pai era, nesta altura, a de camionista. Tínhamos uma camioneta Ford D400 verde. Toda verde! Linda! O meu pai fazia distribuição de bens alimentares e na primeira sexta-feira de cada mês fazia entregas nas lojas que havia espalhadas, pelas aldeias e lugares das zonas periféricas da cidade, e quando falo em zonas periféricas, em Angola, falo de centenas de quilómetros em plena mata africana. Nessas lojas os brancos tinham os seus negócios, onde exploravam a seu belo prazer os negros em trocas comerciais de produtos, em que os nativos ficavam sempre a perder, mas convencidos que tinham feito um bom negócio. Havia muito pouco dinheiro e, então, traziam milho, tabaco, cera, mel, animais de galinheiro e, às vezes, gado bovino ou caprino para trocar por açúcar, sal, óleo, farinha, banha e bebidas licorosas.
Durante os períodos de férias escolares, eu não perdia uma viagem destas com o meu pai e foi aí que “fui obrigado” a aprender a gostar da música de acordeão, pois aquele leitor de cassetes não parava de tocar os corridinhos de Maria Albertina e seu acordeão.
Normalmente, partíamos à sexta-feira e só regressávamos ao domingo. Numa dessas viagens tivemos um problema. Ficámos atolados no barro, numa daquelas picadas que já tínhamos ultrapassado dezenas de vezes sem problemas, mas naquela noite ficámos lá presos. Solidários, aproximaram-se alguns negros, saídos do nada no escuro da noite, no meio da selva africana. Naquelas condições, hoje em plena Amadora ou similar, teríamos sido linchados e a camioneta despojada de toda a sua valiosíssima carga e incinerada de seguida. Felizmente esse ódio não existia, pelo contrário eles sabiam da importância que tinha aquele transporte ser feito. Prontificaram-se a ajudar e foram buscar duas juntas de bois à sua sanzala. Um telemóvel, naquela altura, vinha a calhar! Mas ainda bem que não era o tempo do telemóvel pois também não haveria junta de bois!...se calhar nem Espinha para o RVCC!
Conseguimos desatascar a camioneta com a preciosa ajuda dos negros. Seguimos viagem, não sem antes o meu pai presentear os ajudantes com alguns produtos que levava à consignação. Era já madrugada dentro quando chegámos àquele que seria o nosso destino, no início da noite, para passarmos a noite. Tratava-se de um velho amigo e cliente de meu pai que nos dava normalmente asilo na noite de sexta-feira. Todos enlameados, lá comemos alguma coisa e descansámos 3 ou 4 horas. Enfim, noite para recordar sempre!
Eu também tinha família fora da cidade, no meio do mato e, de vez em quando, passávamos lá um fim-de-semana, para irmos à caça à noite, digo irmos porque eu também ia. Caçar à noite, no meio da mata, quilómetros e quilómetros percorridos no Land Roover, sem G.P.S…. Só se atirava à caça grossa, um coelho só era morto no regresso, se a noite tivesse corrido mal.
Um tio meu ofereceu-me uma arma vulgarmente chamada de Pressão de Ar, quando eu ainda não tinha feito os meus dez anos. Pasme-se! Hoje, eu não daria a um sobrinho meu tal objecto, mas se o fizesse nunca seria antes dos 18 anos, e mesmo assim com algumas reticências. De facto, eu devia ser um menino muito responsável. Só pode ser! Recordo-me de me embrenhar sozinho mata dentro, num desses fins-de-semana, em casa dos meus tios, na Capunda, mais de duas horas, cruzei-me com negros e suas proles, saudávamo-nos uns aos outros, eles armados com suas catanas e zagaias (arma de arco), eu com a minha pressão de ar, mas que só eu sabia ser apenas uma arma de chumbo de calibre 4.5, pouco mais que uma fisga. Cheguei a um descampado com muito capim, pontuado aqui e ali com pequenas árvores, onde corria um pequeno riacho. Eram tantas as rolas e pombos bravos que ali estavam para saciar a sede que eu, qual atirador, nervoso com o espectáculo de tanta fartura, não consegui acertar numa que fosse.
Que vergonha! Quando regressei estava tudo calmo, ninguém estava preocupado com a minha ausência prolongada, e eu apenas trazia um papagaio moribundo com uma chumbada, que eu lhe tinha dado, tentando em vão salvá-lo, pois tão belo era o exemplar, quanto o arrependimento que me invadia a consciência.
Em casa deste meu tio havia sempre carne de caça seca, em tiras que, quando eram postas em cima das brasas, começavam a contorcer-se como se fossem cobras. Era um pitéu muito apreciado e muito picante também. Ainda em 1972, já no final do ano, mudámo-nos com armas e bagagens para a cidade de Moçâmedes, actualmente denominada de Namibe. Esta cidade situa-se no extremo sul da costa atlântica de Angola, definindo praticamente a presença humana nesta zona do país, na fronteira do deserto do Namibe, deserto este único no mundo, pois só nele se pode encontrar uma planta chamada Welwistchia Mirabilis.
Na zona para onde fomos viver existia um porto de águas profundas, onde apenas atracam grandes navios de transporte de minério, semelhantes aos grandes petroleiros, mas com porões secos. Estes navios atracavam sempre vazios e quando entravam na baia pareciam autênticos prédios flutuantes, com dezenas de metros fora de água, nunca com menos de 150 metros de comprimento e saíam carregados de minério de ferro, afundados no oceano, ficando de fora apenas uma pequena franja do navio, que à distancia mais não pareciam que enormes jangadas. O Saco Mar era um bairro de pescadores, mas principalmente de ferroviários, que trabalhavam no terminal ferroviário, que abastecia o sistema de tapetes rolantes, que carregavam os navios. Esta linha de caminhos-de-ferro tinha origem na zona da Jamba, onde eram as minas de ferro. Chegavam aqui enormes composições com 80, 90 vagons e às vezes ainda mais, todos os dias, com esse minério.
Recordo-me especialmente de dois colegas, o Jorge Cebola e o Eusébio. O Jorge era branco e tinha com ele as maiores brigas por causa da Manuela; o Eusébio era negro e disputava com ele a primazia do melhor aluno da sala. Modéstia à parte eu era o melhor aluno e ele tinha a melhor caligrafia. Ele desenhava as letras, confesso que o tentava imitar! Foi nessa escola que aprendi o Hino Nacional, com sessões fixas ao sábado, mas não só, foi aí que aprendi a tabuada, que ainda hoje sei de fio a pavio, os rios, caminhos de ferro, distritos e províncias da Metrópole e das províncias ultramarinas, etc. etc. Também nesta escola tive a oportunidade de fazer a minha primeira representação de teatro, fazendo o papel de Camões da zona.
No Saco Mar não havia igreja, então foi adaptado um pavilhão de uma água que lá existia e onde durante muito tempo fizemos corridas de carros de rolamentos, corridas de miniaturas de automóveis, em pistas marcadas com giz que “pedíamos emprestado” à escola. Perdemos o nosso espaço, mas ganhamos uma capela. Fiz lá a minha 1ª comunhão.
Entre a loja do meu pai e o porto de mar havia uma pequena quinta que era do meu tio Amadeu, onde basicamente eram cultivadas a oliveira e a videira para uva de mesa. Nunca vi cachos de uvas tão grandes como aquelas que ali se produziam. O meu tio também negociava em peixe seco que distribuía para todo o país, em caixas feitas de finas tábuas e cintadas com fita de aço, caixas essas que tinham aberturas entre tábuas enormes, apenas não permitindo que o peixe caísse. Ficava assim o produto à mercê de toda a imundice, mas que aquilo, passado rapidamente pelas brasas e comido com pirão, era bom, lá isso era! Não havia A.S.A.E…. nem necessidade de a criar! Havia pleno emprego, por isso as pessoas estavam ocupadas na sua vida e não havia necessidade de criar mais um organismo para “dar emprego à família ou amigos”.
Quando visitávamos os meus avós paternos, eu imediatamente ia fazer uma visita ao mato à procura de frutos silvestres, que na zona mais árida de Moçâmedes não havia e aquilo que hoje encontramos nas grandes superfícies com o nome de Physalys a um preço exorbitante importado da América do sul, não é mais nem menos aquilo a que em Angola chamávamos de «matipas». Hoje também já se encontram plantas cá e que se dão muito bem. Tinha também o hábito de sair à noite e ir ter com os negros, na sanzala, onde tocavam e dançavam e que já me conheciam como o neto do patrão.
O meu avô para além de uma grande propriedade agrícola, tinha muito gado bovino e suíno. Alimentava os animais com aquilo que a terra dava, e então usava grandes panelas feitas de metade dos latões de 200 litros, para cozer batatas, couves e cereais numa “caldeirada” para porcos, mas que eu não resistia em provar, tirando uma batata, queimando os dedos para lhe tirar a pele e, sem que ninguém visse, lá saboreava o manjar.
Voltando a Moçâmedes, no ano lectivo de 1974, já eu frequentava o 1º ano do ciclo preparatório, deslocávamo-nos de comboio, que era puxado por uma máquina a vapor, numa contradição tecnológica enorme em relação às máquinas que traziam os comboios de vagons carregados de minério de ferro. Às vezes com 120 vagons acoplavam 3 máquinas serpenteando a planície para cá do início do planalto central que começava na Serra da Chela, já no distrito da Huíla.
Entretanto, dá-se aquilo a que os historiadores políticos convencionaram chamar “Revolução de Abril”.
Para a verdadeira história de Portugal e de África, ficarão também as consequências de um processo mal conduzido, uma descolonização precipitada e irresponsável, levando a que milhares de pessoas retornassem à Metrópole e outros milhares viessem como desalojados, não de uma guerra, mas sim “Desalojados de Abril”, e que milhões de africanos tivessem décadas de sofrimento que nunca tinham experimentado antes do 25 de Abril de 1974. Foram mais de 30 anos de fuga de africanos para a Europa, esvaziando aqueles países dos melhores quadros que possuíam, à procura de melhores condições de vida. Aparentemente, a primeira década do novo século marcará o ponto de viragem, em que o fluxo migratório terá um retrocesso e, entretanto, as antes colónias portuguesas têm sido novamente colonizadas por outros, como por exemplo, os Chineses, depois de os Russos e Cubanos terem deixado a sua mestiçagem durante os anos 70 e 80, principalmente em Angola.
Tomada a difícil e sempre adiada decisão, começaram os preparativos para deixarmos Angola. Começaram os serrotes e martelos a trabalhar, fazendo caixotes de enormes dimensões onde foram embaladas mobílias inteiras. Depois de despachados todos os caixotes e dois automóveis por via marítima, ficámos a aguardar que chegasse a nossa vez de partir. Quase todos os dias nos deslocávamos ao porto comercial de Moçâmedes para nos despedirmos de amigos que embarcavam para Luanda. Numa dessas despedidas ficou parte de mim, quando a minha “namorada” partiu. Só voltei a ver a Manuela uma vez em Portugal, muito mais tarde e sei que hoje se encontra no Canadá.
Chegada a nossa hora de partir, dirigimo-nos para o porto, onde o meu pai fez a entrega das chaves de casa e ofereceu-a, assim como a camioneta e tudo o que não pudemos despachar, a dois amigos, um de Cabo Verde e um português, de forma a que eles aproveitassem para explorar o resto do negócio, enquanto houvesse algo para vender, embora cada vez houvesse menos. Com a chegada de pequenos barcos de pesca, cheios de refugiados esfomeados do norte de Angola, tinham simplesmente dizimado tudo o que ainda havia para comer. Lembro-me perfeitamente de eles até a água das latas de salsichas beberem. Mais tarde, tivemos conhecimento que tinham abandonado Angola, via África do Sul, pois a ponte aérea já tinha terminado e a guerra estava instalada, sob os améns do acordo de Alvor.
Embarcámos num cargueiro, a meio da tarde e a minha única bagagem era uma caixa de sapatos, onde trazia dois pássaros, que a meio da viagem haviam de fugir e perder-se no mar. Centenas de pessoas espalhadas pelos porões procuravam o melhor sitio, se é que isso era possível, tal era o barulho ensurdecedor das máquinas. Depois de uma viagem barulhenta, acostámos no porto de Luanda no dia seguinte, ao início da tarde. Fomos levados para o aeroporto, onde no meio de centenas de fardos de mantas pretas, mais parecíamos um acampamento de ciganos, em que cada um fazia a sua tenda. Entretanto, caía a noite e a alimentação que nos era dada era, para mim, muito estranha. Sandes enroladas em sacos de plástico….percebi, mais tarde, tratar-se da comida que era fornecida nos aviões.
Pela madrugada fomos acordados, porque chegara a hora de embarcarmos. Naquele aeroporto só se via gente de um lado para outro, cada um tentando resolver o seu problema. As lágrimas entre os adultos eram o estado de alma comum. Já na despedida de Moçâmedes, quase em uníssono se chorou, ao ver a nossa terra a ficar para trás, desaparecendo no horizonte, onde acabamos por ter e guardar novas imagens, de perspectivas diferentes daquilo que conhecemos em terra firme. Terra que viu nascer os meus avós maternos, que eram descendentes de Madeirenses, que tinham aportado no sul de Angola, terra que recebeu o meu pai com um ano de idade, terra a quem os meus avós paternos deram mais de trinta anos de vida. Mas também foi a terra que nos viu nascer, e onde recebemos aquilo que será sempre parte de nós e da nossa memória. Hoje, já quarentão, não abdico dos ritmos africanos, do gingar que apenas aos nativos fica bem, dos tambores na noite africana. A marca africana contagia mesmo aqueles que nunca pisaram terra abaixo do paralelo 30˚. A vinda de milhares de africanos para a Europa, trouxe também uma cultura desconhecida, com um especial perfume, que nos chega através da música, da escrita, da pintura, da escultura. Escritores como José Eduardo Agualusa, Agostinho Neto, Ana Paula Tavares (poeta) ou Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela), a arte da “máscara azul de Angola”, máscara de madeira com grande importância em rituais culturais, representando a vida e a morte, a passagem da infância à vida adulta, a celebração de uma nova colheita ou o começo da estação da caça. A música onde a presença do Semba, Kuduro ou a Kizomba já são realidades incontornáveis, que representam o lado bom da abertura de Angola ao mundo, em consequência da sua independência política. Quando a promoção turística em Angola acontecer, então teremos um colosso na sua plenitude, podendo mesmo vir a liderar as influências politicas subsarianas naquele continente.
15 de Outubro de 1975, chegámos a Lisboa, depois de uma paragem técnica em Abidjan ( Costa do Marfim). Foi ao princípio da tarde em que, ao pôr o nariz fora do avião, tive a sensação de ter entrado numa câmara frigorífica. Imagine-se gente africana, com roupas leves, a aterrar em Lisboa em pleno Outono!
Depois das peripécias todas com o desembarque, foram entregues dez mil escudos ao meu pai para as “primeiras impressões”. O meu pai tinha uma carta de chamada para vir para Leiria, através de uma irmã da minha mãe, onde viríamos a ficar cerca de um ano e meio, instalados num pavilhão da, então, Prisão Escola de Leiria. Milhares foram para pensões e hotéis durante anos, mas os meus pais preferiram enfrentar a situação, procurando imediatamente trabalho. Viemos três famílias, juntas desde Angola, uma delas era a do sócio do meu pai em Angola, numa fábrica de pastelaria e geladaria.
Na Prisão Escola trabalhava o meu tio como caseiro e eu, sortudo, tive acesso ao Colégio Interno dos Maristas que hoje é o edifício da P.J., nos Pousos. Por 500 escudos mensais tinha tudo, menos a companhia da família, que só via uma vez por mês. Não foi fácil adaptar-me, mas mais difícil foi para os meus pais e irmãos que passaram fome, mesmo fome! O pouco que tinham para comer era-lhes oferecido pela instituição, que fazia passar a carroça com os panelões pelo pavilhão e onde vinham batatas e couves a nadar em azeite. Era o que havia! A pouca carne que eles arranjavam eram os pombos que “roubavam” durante a noite no pombal.
Entretanto, o meu pai e o sócio resolveram montar uma pastelaria na Marinha Grande. Ainda hoje existe a pastelaria Flórida, que se situa na Embra, hoje em novo edifício. Em 1977, sou aconselhado a sair do colégio por falta de vocação religiosa, venho para a Mª Grande, onde estudo mais dois anos e, em 1979, cometo o erro muito comum de abandonar a escola e abraçar o mundo do trabalho.
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Por terras de França - Histórias da vida de Zé Nabeiro
Por Ana Carvalho, Profissional do CNO da Escola Secundária Engº Acácio Calazans Duarte
Diz a minha mãe que nasci a 28 de Fevereiro de 1970, não me lembro… há quem diga que se lembra de coisas de quando tinham 1 ou 2 anos, eu não...
A minha primeira lembrança é a de um dia bem frio do mês de Dezembro, quando a minha mãe foi dar-me um beijo à cama e acordou-me a dizer que tinha de ir para o hospital pois o meu irmão ia nascer, aquela informação surtiu em mim um efeito medonho pois agarrei-me ao pescoço dela a dizer que não queria que ela se fosse embora. Coitada devia estar cheia de dores e eu ali a agarrá-la pelo pescoço…
A minha infância foi uma infância “boa”, actualmente até acho que foi maravilhosa, os meus pais deram-me liberdade para eu crescer na rua, com os meus vizinhos, para subir às árvores, para andar de bicicleta pelos pinhais e matas da minha aldeia. Construíamos “clubs” de amigos, com direito a uma bela “vivenda” de cartão onde nos reuníamos para falar de tudo e de nada e assim cresci feliz…
Deve ser por isso que ainda hoje gosto de me reunir com os amigos, de belas jantaradas e de falar, falar de tudo e de nada…
Os meus pais durante a sua adolescência foram emigrantes e depois do casamento voltaram para Portugal. Eu já nasci cá.
No entanto quando eu tinha 14 anos começaram a ponderar regressar a França. Assim quando eu terminei o 9º ano, voltamos a França.
Foi difícil, deixar os meus amigos, as minhas raízes, e mais nesta idade onde tudo é mais importante do que a nossa família. Andei muito revoltado o que fez com que a minha adaptação fosse ainda mais difícil. Quando me tentei inscrever na escola, ainda por cima colocaram-me dois anos atrás da minha escolaridade. Agora com as coisas do Bolonha dizem que é mais fácil, mas ainda não percebi bem para quem é que é mais fácil, porque agora que há tantos emigrantes em Portugal, e ainda por cima com muitos estudos, dizem que não os reconhecem, mas pode ser que o Bolonha mude alguma coisa.
Lá fomos nós para França, demorámos 3 dias, só nas fronteiras tinham que nos ver de cima a baixo, revistavam tudo, nem uma garrafinha de Porto, podíamos levar. Vejam as mudanças, agora com as fronteiras abertas até um kg de droga dava para levar que ninguém nos diz nada.
As estradas eram tão más, mas as paisagens tão lindas… Lembro-me de passarmos os Pirinéus, túneis enormes que eu e o meu irmão adorávamos, as viagens acabavam sempre com o meu pai a gritar connosco, começávamos na brincadeira e passado algum tempo já estávamos os dois à pancada um no outro. Mas quando o meu pai falava, nem uma mosca se ouvia no carro, o respeito era muito lindo. Ainda hoje, sei que os valores familiares que tenho devo-os à forma como ele nos educou.
Em França fomos viver para uma vila do interior, muito bonita, onde os irmãos da minha mãe tinham ficado a morar, Chamava-se Moulins. O meu pai trabalhou muitos anos numa fábrica da Peugeot, a minha mãe ia fazendo umas horas de limpeza aqui e ali.
“Os emigrantes são filhos do nada”, dizia a minha mãe, “em França somos portugueses, em Portugal somos emigrantes, que raio de vida a nossa…”
A minha mãe sempre foi muito desenrascada e ajudou muita gente, pessoas que como nós ali caiam e que nem uma palavrinha de francês sabiam, lá ia ela com eles à segurança social e à conservatória, andava sempre de um lado para o outro… o meu pai, esse trabalhava noite e dia, a minha mãe queixava-se que ele nunca parava em casa, mas eu até o defendia, coitado, era por nossa causa, como é que nos podíamos queixar nós, se ele não o fazia. E era a ele que lhe saia do corpo..
Voltando à minha história, terminei o 11º ano e achei que eu também tinha que começar a contribuir para a casa, por isso sai da escola e comecei a trabalhar como ajudante num restaurante, aprendi muito, sobretudo sobre cozinha francesa, um pouco mais requintada e saudável que a nossa, mas não há nada que chegue a uma feijoada, bem carregada de calorias e colesterol.
Gostei de lá estar, mas as saudades de Portugal, eram cada vez maiores e a vontade de ter uma Pátria crescia, pois os comentários racistas de que muitas vezes era alvo, só me faziam amar cada vez mais o meu país. Por isso, num “querido” mês de Agosto, falei com o meu pai e disse-lhe que ficaria em Portugal, a experiência que tinha adquirido no restaurante podia ajudar-me a começar a abrir um restaurante na aldeia, e até a contribuir para o seu desenvolvimento, não dizem que o turismo é o futuro.
Ele compreendeu, e até acho que ficou contente, mesmo que não tenha demonstrado, talvez um dia me diga o que lhe vai na alma.
Voltei no ano de 1995, tratei da legalização de um terreno do meu pai, antes bastava a palavra de alguém para considerar um terreno vendido, mas como as coisas mudaram tive que fazer o levantamento de todas as terras e declara-las, não fosse eu estar para ali com o trabalho e vir um desses inspectores e levar-me tudo.
Lá tratei de tudo, e a câmara até me deu uma ajuda financeira por contribuir para o aumento dos postos de trabalho, calhou mesmo bem.
O Restaurante dá muito trabalho a gerir, é um negócio que quase não dá para tirar férias, e agora com estas novas leis da ASAE, não é fácil mantê-lo mas tudo corre bem, a nossa especialidade era a “Canja dos Cornos”, mas que agora por causa das vacas louca tivemos de alterar. É que era feita com a mioleira da cabeça das vacas e agora temos de substituir, mas também fica boa na mesma. O resto é tudo pratos típicos da zona, que eu gosto de manter as tradições, e se for na comida melhor. Falam da agricultura biológica, eu no restaurante é tudo feito com alimentos biológicos, é verdade, tudo é natural e das hortas e quintas dos meus amigos, e esses sei eu que são de confiança.
Um dia destes fui ao centro de emprego por causa de me tentarem encontrar uma pessoa para servir ás mesas, e vi lá um cartaz que dizia que aprender compensa, tive que perguntar o que era aquilo. Explicaram-me das equivalências do que aprendemos ao longo da vida, primeiro não percebi bem, e achei, essa agora, era o que fazia falta, andam os jovens a queimar as pestanas para tirarem os cursos e agora vêm estes e em meses ficamos nós com direito ao mesmo, mas depois fui para casa e pensei, nessa noite quase não dormi, até nem era tão ridículo…
E lá voltei eu a ver o que é que era preciso, eu até nem tenho muito tempo para fazer isto, mas também mais vale tarde que nunca, e estúpido também não morro. Até pode ser que consiga tirar o curso de Cozinheiro que á tanto tempo quero tirar.
Vale das Éguas, 13 de Outubro de 2008
Diz a minha mãe que nasci a 28 de Fevereiro de 1970, não me lembro… há quem diga que se lembra de coisas de quando tinham 1 ou 2 anos, eu não...
A minha primeira lembrança é a de um dia bem frio do mês de Dezembro, quando a minha mãe foi dar-me um beijo à cama e acordou-me a dizer que tinha de ir para o hospital pois o meu irmão ia nascer, aquela informação surtiu em mim um efeito medonho pois agarrei-me ao pescoço dela a dizer que não queria que ela se fosse embora. Coitada devia estar cheia de dores e eu ali a agarrá-la pelo pescoço…
A minha infância foi uma infância “boa”, actualmente até acho que foi maravilhosa, os meus pais deram-me liberdade para eu crescer na rua, com os meus vizinhos, para subir às árvores, para andar de bicicleta pelos pinhais e matas da minha aldeia. Construíamos “clubs” de amigos, com direito a uma bela “vivenda” de cartão onde nos reuníamos para falar de tudo e de nada e assim cresci feliz…
Deve ser por isso que ainda hoje gosto de me reunir com os amigos, de belas jantaradas e de falar, falar de tudo e de nada…
Os meus pais durante a sua adolescência foram emigrantes e depois do casamento voltaram para Portugal. Eu já nasci cá.
No entanto quando eu tinha 14 anos começaram a ponderar regressar a França. Assim quando eu terminei o 9º ano, voltamos a França.
Foi difícil, deixar os meus amigos, as minhas raízes, e mais nesta idade onde tudo é mais importante do que a nossa família. Andei muito revoltado o que fez com que a minha adaptação fosse ainda mais difícil. Quando me tentei inscrever na escola, ainda por cima colocaram-me dois anos atrás da minha escolaridade. Agora com as coisas do Bolonha dizem que é mais fácil, mas ainda não percebi bem para quem é que é mais fácil, porque agora que há tantos emigrantes em Portugal, e ainda por cima com muitos estudos, dizem que não os reconhecem, mas pode ser que o Bolonha mude alguma coisa.
Lá fomos nós para França, demorámos 3 dias, só nas fronteiras tinham que nos ver de cima a baixo, revistavam tudo, nem uma garrafinha de Porto, podíamos levar. Vejam as mudanças, agora com as fronteiras abertas até um kg de droga dava para levar que ninguém nos diz nada.
As estradas eram tão más, mas as paisagens tão lindas… Lembro-me de passarmos os Pirinéus, túneis enormes que eu e o meu irmão adorávamos, as viagens acabavam sempre com o meu pai a gritar connosco, começávamos na brincadeira e passado algum tempo já estávamos os dois à pancada um no outro. Mas quando o meu pai falava, nem uma mosca se ouvia no carro, o respeito era muito lindo. Ainda hoje, sei que os valores familiares que tenho devo-os à forma como ele nos educou.
Em França fomos viver para uma vila do interior, muito bonita, onde os irmãos da minha mãe tinham ficado a morar, Chamava-se Moulins. O meu pai trabalhou muitos anos numa fábrica da Peugeot, a minha mãe ia fazendo umas horas de limpeza aqui e ali.
“Os emigrantes são filhos do nada”, dizia a minha mãe, “em França somos portugueses, em Portugal somos emigrantes, que raio de vida a nossa…”
A minha mãe sempre foi muito desenrascada e ajudou muita gente, pessoas que como nós ali caiam e que nem uma palavrinha de francês sabiam, lá ia ela com eles à segurança social e à conservatória, andava sempre de um lado para o outro… o meu pai, esse trabalhava noite e dia, a minha mãe queixava-se que ele nunca parava em casa, mas eu até o defendia, coitado, era por nossa causa, como é que nos podíamos queixar nós, se ele não o fazia. E era a ele que lhe saia do corpo..
Voltando à minha história, terminei o 11º ano e achei que eu também tinha que começar a contribuir para a casa, por isso sai da escola e comecei a trabalhar como ajudante num restaurante, aprendi muito, sobretudo sobre cozinha francesa, um pouco mais requintada e saudável que a nossa, mas não há nada que chegue a uma feijoada, bem carregada de calorias e colesterol.
Gostei de lá estar, mas as saudades de Portugal, eram cada vez maiores e a vontade de ter uma Pátria crescia, pois os comentários racistas de que muitas vezes era alvo, só me faziam amar cada vez mais o meu país. Por isso, num “querido” mês de Agosto, falei com o meu pai e disse-lhe que ficaria em Portugal, a experiência que tinha adquirido no restaurante podia ajudar-me a começar a abrir um restaurante na aldeia, e até a contribuir para o seu desenvolvimento, não dizem que o turismo é o futuro.
Ele compreendeu, e até acho que ficou contente, mesmo que não tenha demonstrado, talvez um dia me diga o que lhe vai na alma.
Voltei no ano de 1995, tratei da legalização de um terreno do meu pai, antes bastava a palavra de alguém para considerar um terreno vendido, mas como as coisas mudaram tive que fazer o levantamento de todas as terras e declara-las, não fosse eu estar para ali com o trabalho e vir um desses inspectores e levar-me tudo.
Lá tratei de tudo, e a câmara até me deu uma ajuda financeira por contribuir para o aumento dos postos de trabalho, calhou mesmo bem.
O Restaurante dá muito trabalho a gerir, é um negócio que quase não dá para tirar férias, e agora com estas novas leis da ASAE, não é fácil mantê-lo mas tudo corre bem, a nossa especialidade era a “Canja dos Cornos”, mas que agora por causa das vacas louca tivemos de alterar. É que era feita com a mioleira da cabeça das vacas e agora temos de substituir, mas também fica boa na mesma. O resto é tudo pratos típicos da zona, que eu gosto de manter as tradições, e se for na comida melhor. Falam da agricultura biológica, eu no restaurante é tudo feito com alimentos biológicos, é verdade, tudo é natural e das hortas e quintas dos meus amigos, e esses sei eu que são de confiança.
Um dia destes fui ao centro de emprego por causa de me tentarem encontrar uma pessoa para servir ás mesas, e vi lá um cartaz que dizia que aprender compensa, tive que perguntar o que era aquilo. Explicaram-me das equivalências do que aprendemos ao longo da vida, primeiro não percebi bem, e achei, essa agora, era o que fazia falta, andam os jovens a queimar as pestanas para tirarem os cursos e agora vêm estes e em meses ficamos nós com direito ao mesmo, mas depois fui para casa e pensei, nessa noite quase não dormi, até nem era tão ridículo…
E lá voltei eu a ver o que é que era preciso, eu até nem tenho muito tempo para fazer isto, mas também mais vale tarde que nunca, e estúpido também não morro. Até pode ser que consiga tirar o curso de Cozinheiro que á tanto tempo quero tirar.
Vale das Éguas, 13 de Outubro de 2008
Histórias de Vida para o RVCC-NS
Por Alice Marques, Profissional do CNO da Escola Secundária Eng. Acácio Calazans Duarte
Histórias de Vida para o RVCC-NS
Sebastião Ribeiro (agricultor)
Vitória Ruas (prostituta)
Arlindo Moinas (pedreiro)
Nota: Estas histórias fazem parte de um desafio proposto à equipa técnico-pedagógica do RVCC.
Até agora, apenas Alice Marques e Ana Carvalho responderam ao desafio.
O desafio chama-se: Quem sabe escrever pode ensinar a escrever!
Alice Marques e Ana Carvalho, duas técnicas profissionais, puseram-se na pele de adultos imaginários, correspondendo a perfis que conhecem, de pessoas reais que procuram os CNO’s para fazer a certificação de nível secundário e propõem-nos histórias credíveis.
Alguns pedaços da minha vida
Por: Sebastião Ribeiro, agricultor, 55 anos.
Não sei como arranjei coragem para entrar nisto do RVCC. Aqui á uns anos comecei a ver anúncios da Judite de Sousa, do Carlos Queirós e daquela costureira do Porto Maria qualquer coisa, e percebi que eles também não tinham acabado o 12º ano. Primeiro pensei se eles com tão pouca escola chegaram onde chegaram, porque é que eu havia de satisfazer os caprichos das minhas filhas, que há mais de dois anos me andam a influir para ir acabar os estudos. Falei com elas e então explicaram-me que aqueles anúncios até estavam mal feitos porque as pessoas pensavam que eles não tinham estudado. Eu até achava piada, mas metia-me espécie. Bom, então percebi que aquilo que eles apareciam no anúncio era se eles não tivessem acabado. E pronto, decidi fazer mesmo o 12º ano por esta coisa que o governo do Sócrates, nem sei porque é que dizem tanto mal dele, agora criou que se chama as novas oportunidades. Fui lá à junta de freguezia de Campo Maior e enscrevi-me. Chamaram-me passado um mês e mandaram-me pra casa disseram-me para eu escrever sobre a minha vida e cá estou eu. Escrevi tudo à mão e depois foi a minha filha Graça, a mais velha que é doutora juíza em Almodôvar, que me passou isto pró computador mesmo com os erros que eu disse-lhe que as doutoras disseram que os filhos podem ajudar mas não corrijem os erros porque elas tem que se dão erros, porque eu de computadores não percebo nada.
A minha vida começa assim. Nasci em Campo Maior em 1953, os meus pais eram agricultores abastados mas ficaram sem nada quando foi o 25 de Abril porque tinham terras em poisio e vieram os comunistas e queriam roubar-lhe as terras. Eu era o filho mais velho, tinha feito o 5º ano da Escola Comercial a minha irmã Manuela tinha 10 anos e a Conceição 8, e o meu pai disse-me tens de deixar o emprego nas rações e ir tomar conta das terras senão os comunistas tiram-nos tudo. E eu deixei a escola, com grande pena minha porque queria muito ser engenheiro das pontes. Casei cá na terra com uma rapariga também com poucos estudos, fize-mos a nossa casinha aqui mesmo em Campo Maior e aqui tivemos as nossas duas filhas, a Graça que já falei e a Maria das Dores que é professora de Ciências em Évora.
As minhas filhas nunca se envergonharam de mim achava eu mas há uns tempos começaram a dizer-me pai tem que ir tirar o 12º ano agora nas oportunidades e foi assim como eu disse que cá vim parar.
Lá no Centro estava uma doutora muito bonita que nos esteve a mostrar uma lista de assuntos muito grande e chamava-lhe lista de competênsias. Eu sempre me considerei um agricultor competente porque nunca pedi um empréstimo ao banco, as minhas terras sempre deram boa produção de azeite, cortiça e muito boa fruta, melhor que os espanhóis que compraram uma herdade aqui ao lado da minha e nunca pedi um subesídio ao governo como muitos portugueses estão fazendo que até para arrancar as árvores pedem e que eu acho que são mas é uma cambada de malandros que não querem dar o corpo ao manifesto e mal vem uma rabanada de vento vão logo a correr pedir subesídios. Mas fazia-me espécie como é que eu podia ser um homem com estudos só por ser um agricultor de sucesso como agora se diz.
Bem quando eu vi aquela lista, apeteceu-me logo desistir. Cada palavrão que me parecia mais uma coisa pra quem queria ser doutor. Cheguei a casa e disse á minha mulher que já não voltava, mas ela ligou logo à Maria das Dores que veio correndo cá casa trouxe o computador ligado à Internet e passou horas a explicar-me o que era então as competências e como e que se mostravam. Fez-me uma lista e disse-me o pai quando estiver a escrever esteja sempre a olhar para esta lista pra ver se não se esquece de nada. E eu lá comecei a escrever esta história pois daqui a um mês vou lá voltar ao centro e não sou pessoa de não fazer o trabalho de casa.
Como eu já disse de computadores não percebo nada, mas tenho televisão, até tenho TV Cabo e gosto muito de ver os canais com filmes sobre animais, em casa temos telefone e quando fiz 50 anos as minhas filhas deram-me um telemóvel que eu já sei usar para mandar mensagens e graças a Deus temos todas as comodidades, frigorífico, fogão eléctrico, microondas, máquina de lavar roupa porque a minha Rosa tem bicos de papagaio e á muitos anos que não pode estar dobrada no tanque a lavar a roupa, a máquina de lavar loiça não faz tanta falta porque somos só os dois em casa, quando as filhas vêem e os netos elas é que lavam e como eu estava dizendo temos estas comodidades e eu sei ligar essas coisas todas e acho que isso faz parte lá dos sistemas técnicos. Ah também tenho carta de condução e com o meu carrito eu e a minha Rosa saímos muitas vezes até Évora e Badajoz agora ainda mais que vamos lá todas as semanas atestar o depósito que a gasolina é muito mais barata lá. E também conduzo o tractor e as máquinas todas de lavrar, gradar, ceifar, tudo é feito por mim e mais umas pessoas que eu contrato quando há muito trabalho e uma rapariga que se ajeita na contabilidade e que me faz todos os anos os impostos.
Agora tem andado por aqui uns engenheiros que dizem que vem ensinar a ter melhores colheitas onde é que já se viu rapazes e raparigas de mãos mimosas, que nunca pegaram numa enxada, pensando que podem vir ensinar o padre nosso ao vigário. O que eu sei é que muitos compadres que eles ensinaram deixaram de semear e agora estão a receber subesídios. Ninguém me tira da cabeça que o governo quer é vender isto tudo aos espanhóis, ou então quer que os portugueses comprem tudo aos chineses, até o leite, lá por causa dos contratos que eles assinam e ninguém percebe o que é. Há dias vi na televisão numa terra qualquer da França, uns agricultores chegarem a uma praça e despejarem camiões de fruta com tanta gente a passar fome, ó que mundo este.
Também me mandaram escrever sobre a minha saúde pois graças a Deus até agora tenho sido um homem cheio de saúde, só fui uma vez ao hospital de Portalegre a minha Rosa coitada é que não, passa a vida nos médicos e como tiraram o médico do centro cá da terra agora anda num particular e são rios de dinheiro todos os meses e ela sempre na mesma. Diz que não têm médicos, mas eu conheço até uns ucranianos que aqui andam trabalhando nas obras que diz que são médicos, porque é que não os põem a dar as consultas? Cá pra mim o governo é um bocado racista só porque eles vem doutros países acham que os diplomas deles não tem valor, pois eu acho que enquanto isto estiver assim o país não vai longe, porque eles são pessoas como nós que eu bem os vejo trabalhadores e sempre a poupar para voltarem pra sua terra ou pra trazerem as mulheres e os filhos pra cá. É a sina deles e também já foi a nossa que eu sei de muitos portugueses que foram por esse mundo fora procurar melhor vida por isso temos que ser uns prós outros hoje eles amanhã ou ontem nós, somos todos filhos de Deus e não ha razões pró governo não os ajudar até a ficarem por cá e serem médicos e engenheiros em vez de pedreiros e mulheres a dias porque vesse que são pessoas educadas.
E para acabar esta parte da minha história queria dizer que estou muito ralado com esta crise que agora falam ainda na 2ª feira estive ouvindo o prós e contras que é um programa que eu gosto muito porque informa bem mas às vezes adormeço. Não percebo porque é que os governos estão agora dando dinheiro aos bancos, mas não ficam com os bancos. Eu que sou do tempo da nacionalização da banca não consigo perceber e acho que o governo está usar o dinheiro dos nossos impostos para dar aos bancos e isso é um escândalo. Deus queira que os donos apanhando-se com o dinheiro no bolso não fujam pró Brasil, como é costume neste país onde há muita gente sem vergonha. Queria ver os meus netos crescerem e serem engenheiros e doutores. E já agora queria fazer o 12º e até já decidi que vou também fazer um curso de informática e comprar um computador porque se até o meu neto Diogo com 4 anos já mexe num será que o cota do avô não há-de ser capaz?
E pronto, assim termino o primeiro trabalho para o RVCC e cá estou aprontando-me pra fazer os outros.
Campo Maior, 22 de Outubro de 2008
Prostituta também é gente
Por: Vitória Ruas
O meu nome não é Vitória Ruas, mas Maria de Lurdes Almeida Pereira, como consta no meu bilhete de identidade. Nasci há 32 anos, numa pequena aldeia da Beira Alta, no distrito da Guarda, e os meus pais sonhavam para mim um futuro brilhante, doutora em qualquer coisa. Mas quando a cabeça não tem juízo… diz o ditado que o corpo é que paga e comigo foi mesmo assim.
Um dia o meu destino bateu à porta da escola. Estava eu no 11º ano, sem perder ano nenhum, muito boa aluna, com os meus 17 anos. Alta, morena, encorpada demais para a minha idade, com as hormonas em grande agitação, eu era uma bomba ambulante. Tínhamos saído duma aula de História, com a professora Célia, uma tipa fantástica, toda modernaça e com umas ideias muito avançadas. Eu e a minha colega Rita, como era cedo, fomos ao Café Albertino, onde costumávamos fazer tempo para o autocarro. Foi aí que vimos um homem, com muito bom aspecto, dos seus trinta e poucos anos, descer dum carrão e dirigir-se a nós de forma muito educada e convidando-nos para dar uma volta com ele. Ingénuas e encantadas das com o homem e o carro, aceitamos logo. Que mal podia haver?
Já estão a perceber onde é que esta ingenuidade nos levou. Quando demos por nós, estávamos a caminho de Espanha, porque o senhor Correia era afinal um angariador de “meninas”. No princípio ainda pensamos que ele só nos levava a um bar que há na estrada para Salamanca, e que não havia nada de mal nisso, afinal éramos já crescidas, saíamos à noite e íamos aos bares e de certo que ele nos ia trazer antes da noite. Mas não foi assim. Largou-nos num descampado, numa espécie de armazém, onde havia muitas outras raparigas, e um outro homem, a quem chamavam o “paizinho”. Foi ele que nos disse: vocês sabem ao que vêm?
Nós não sabíamos, mas por esta altura já começávamos a desconfiar que tínhamos sido raptadas para trabalhar num bar de alterne. A Rita começou a chorar e levou logo um par de tabefes, ali diante de toda a gente. Eu tentei acalmá-la e fui falar com o paizinho e disse-lhe: ao menos deixe-nos telefonar para casa, havemos de arranjar uma desculpa para não voltar hoje. Ele concordou e disse-me exactamente as palavras que devia dizer. Já lá vão 14 anos e lembro-me como se fosse hoje. Dizes à tua mãe que foram pra uma visita de estudo mas têm que ficar três dias.
Eu tremia toda quando disse isto a telefone. A minha mãe fartou-se de fazer perguntas, com que professor tinha ido, se a camioneta estava avariada, quando voltávamos, ameaçou ir à polícia, enfim, coisas normais de uma mãe. E eu ia repetindo tudo o que o paizinho me dizia. Penso que a minha mãe não ficou convencida, mas também já não era a primeira vez que eu não aparecia em casa.
Até hoje nunca cheguei a saber o que pensava porque só voltei a falar com ela um mês depois para lhe dizer: mãe, a verdade é que eu fugi de casa e estou a viver na Alemanha. Não vale a pena ir à polícia porque eu faço 18 anos daqui a uma semana e já não pode obrigar-me a voltar.
Devem estar curiosos por saber como é que eu arranjei coragem para isto. Pois é verdade. Naquela noite, duas das raparigas mais velhas, aproximaram-se de mim e da Rita e contaram-nos a sua história, não sei se verdadeira se falsa. Tinham vindo de livre vontade, trabalhavam num bar e uma delas, em 3 anos já tinha conseguido amealhar uma pequena fortuna e contava um dia poder ter o seu próprio negócio de “meninas”. Não sei porquê, mas aquela mulher, tão linda, tão cheirosa e bem vestida, convenceu-me. Fez-me pensar: que mal pode haver em beber uns copos com uns homens e ganhar dinheiro com isso? Afinal eu já tinha bebido tantos com colegas e tinha de os pagar! Convenci a Rita, que também não era lá muito certinha, e fizemos um pacto: ficávamos até conseguirmos juntar dinheiro para comprar um carro e voltar à Guarda como se tivéssemos estado emigradas uns tempos. Ela resistiu muito porque tinha um namorado, que era um grande parvalhão diga-se, mas ela gostava dele e sabia que ele nunca compreenderia isto e havia de pensar que ela se tinha tornado uma prostituta. Fiz-lhe ver que ela merecia melhor do que aquele tosco, ainda por cima ganzado, que lhe fazia a vida negra. A mãe dela tinha morrido quando ela era pequena e ela vivia com os avós, porque o pai tinha voltado a casar e a madrasta nunca a aceitou bem. Coitados dos avós. Morreram passados dois anos, sem saber o que tinha acontecido à neta.
Bem, voltando atrás, ficámos. Nessa noite não fomos “trabalhar”. O paizinho disse-nos que precisávamos dum “tratamento”, dum corte de cabelo e umas roupas próprias para o trabalho. No dia seguinte veio ao armazém uma senhora muito fina, com uma mala cheia de roupa e um homem que via-se mesmo que era gay com uma maleta cheia de apetrechos de cabeleireiro. Fez a cada uma um corte de cabelo demais, com madeixas e extensões. Experimentámos roupa e mais roupa, toda tão provocante, sentíamo-nos as mulheres mais lindas do mundo. E estávamos mesmo, até porque já éramos umas moças bem bonitas, mesmo sem “tratamento”.
Nessa noite, mudaram-nos para uma casa muito acolhedora, onde passámos a viver com mais 7 raparigas, todas muito bem postas e todas com o mesmo trabalho. Cada uma de nós começou nessa noite a fazer o “estágio”, como dizia o “paizinho”. Devíamos estar com as mais velhas, observar como faziam até estarmos prontas para atender um cliente. Este estágio durou um mês e eu e a Rita sempre convencidas de que o nosso trabalho era fingir que íamos beber uns copos com os clientes.
Quando passámos a”efectivas” é que percebemos que o mais importante daquele trabalho se passava fora do bar.
Ao fim duma semana eu já tinha dois clientes fixos com os quais fazia sexo no final da noite e que me pagavam por fora, em cada noite, o que eu demorava 6 meses a ganhar no bar.
A minha história como prostituta começa aqui. Um deles, um homem de que não posso revelar a identidade, dois meses depois de me conhecer, tirou-me da casa e levou-me a viver com ele. Eu tinha a ilusão de vir a ser uma espécie de primeira dama, mas a realidade foi outra. Seis meses depois de estar instalada num bom apartamento em Valladolid, a mulher dele descobriu-nos e ameaçou armar um escândalo que lhe destruiria a carreira. Ele, que afinal era um grande traste, obrigou-me a deixar o apartamento, e, numa noite, meteu-me no carro e levou-me até Madrid onde me largou nas ruas. E ali estava eu, a fazer 19 anos, largada nas ruas de Madrid, sem dinheiro e sem um tecto para me abrigar. Chorei muito, tive muito medo, dormi ao relento duas noites e depois de muito pensar, tomei uma decisão - iria fazer aquilo que melhor tinha aprendido no último ano, sexo. Ia ser uma puta.
Há zonas em Madrid onde as prostitutas são tantas que se atropelam umas às outras. Há de todas as raças e idades, mas felizmente para quem tem 19 anos e um corpinho de fazer inveja, não há desemprego para quem quer andar nas ruas.
Arranjei facilmente clientes e em menos de um mês já tinha um lugar decente para morar, que partilhava com uma ucraniana e uma russa. Mas andar nas ruas é um trabalho muito perigoso. Apanha-se de tudo, velhos tarados, novos frustrados, bêbados, homens de negócios, tudo…! As minhas companheiras de casa e das ruas, com quem falava em espanhol, porque elas já andavam por lá há uns anos, começaram a falar-me de países onde a prostituição era legal, onde havia sindicatos, assistência médica e toda a protecção de que precisam as mulheres da vida. Desde que ouvi contar isso eu não parava de pensar que o melhor era ir para um país desses, havia de me safar. E se bem o pensei melhor o fiz. Um dia, depois de ter estado com um cliente daqueles que os cães não querem, tomei a decisão: é hoje! Falei com a Lola (a ucraniana) e combinamos ir embora no dia seguinte. Holanda era o nosso sonho.
Arrumámos os nossos parcos haveres e fomos para o aeroporto. Ela era muito entendida nas coisas de computadores e por isso conseguimos comprar um bilhete para essa madrugada, num avião que saía às 4 da manhã. Ia começar outra aventura.
Duas horas depois estávamos na Holanda. A Lola, que na Holanda veio a chamar-se Maja, tinha um contacto de uma amiga, de modo que foi fácil arranjarmos alojamento provisório. Como tínhamos algum dinheiro, pagámos logo o aluguer do quarto por um mês, pois não sabíamos se era fácil ou difícil arranjar apartamento.
A Iliria, amiga da Maja, introduziu-nos no “ramo”. Avisou-nos logo que para sermos trabalhadoras do sexo em Amesterdão, teríamos que nos sindicalizar e colectar nas finanças. Eu nem queria acreditar no que ouvia: Passava de puta a trabalhadora do sexo, de explorada por homens a trabalhadora por conta própria.
Passados três dias já tínhamos os papéis em ordem e arranjamos lugar na Red Light District, a zona de prostituição legal na cidade. Nunca vi tanta trabalhadora do sexo junta, numa zona à volta duma Igreja que se chama Igreja das Mulheres. Eram novas, velhas, pretas, brancas, gordas, magras, de todas as partes do mundo, algumas estudantes universitárias que têm este trabalho para pagar os estudos. Mas há trabalho para todas. E o que se ganha num mês vale bem o sacrifício que é fazer sexo com alguns homens. Digo mesmo há trabalhos muito piores e muito mais mal pagos.
Muitas das raparigas que trabalham nesta cidade em que parece que nada é proibido, são muito cultas e foi com elas que comecei a ler livros que nunca pensei vir a ler e que me veio a ideia de ter um negócio: criar um site na Internet e trabalhar a partir de casa, porque há homens e mulheres que preferem fazer sexo sozinhos imaginando que estão com uma ou mais mulheres. E assim foi. Chamei um fotógrafo lá a casa, eu e duas amigas tirámos fotografias que pareciam da playboy, e criámos um serviço de “sexo on line”. Para este trabalho o mais importante é ter uma boa voz e saber falar muitas línguas, porque podemos estar on line com um cliente de qualquer nacionalidade. Por isso inscrevi-me numa escola de línguas onde aprendi Francês, Inglês e Alemão, para além do holandês que aprendi por viver na Holanda. Até ter o meu próprio site eu não tinha percebido quanto é que a Internet podia mudar a minha vida. Fiz também fotos para SMS com chamadas de valor acrescentado. Depressa passei a ser conhecida como a Vitória Virtual Woman. Durante 6 anos, fui dividindo o meu tempo entre o sexo virtual, por sms, videoconferência ou pelo msn, e o real, ganhei muito dinheiro, sobretudo com os homens que depois de fazerem sexo comigo on line ou por sms me queriam conhecer pessoalmente. Mas eu tinha prometido a mim mesma que nunca mais nenhum homem me havia de enganar e por isso nunca me deixei levar na cantiga de alguns que queriam tirar-me da vida e me ofereciam mundos e fundos.
Sempre com os meus impostos em dia e muito respeitada pelas colegas de trabalho cheguei a ser dirigente sindical e fui uma das organizadoras de um movimento de prostitutas que lutava pelo direito à reforma das trabalhadoras do sexo. Até foram usados vídeos meus numa exposição sobre a prostituição que esteve numa igreja durante dois meses e que se chamava Love to koop, que quer dizer Amor para vender.
Não há outro país igual à Holanda para se ser prostituta. Tem-se trabalho, respeito, assistência médica e só quem quiser é que tem chulo. Ninguém aceita fazer sexo sem preservativo, todas as semanas as mulheres têm consulta médica nos serviços do estado e assim se evitam as doenças como a Sida que é um flagelo nos países onde a prostituição não é legal, como o nosso, onde a maioria das pessoas querem tapar o sol com a peneira.
Na Holanda eles preocupam-se com tudo. As ruas de Amesterdão estão sempre cheias de turistas, que sujam tudo. Mas de madrugada há equipas de limpeza que deixam tudo num brinquinho.
As drogas para fumar são permitidas nos coffee shops e há muita gente que vai a este país só para ver as montras de prostitutas, ter sexo com umas e poder fumar haxixe ou marijuana sem medo de ser preso ou de lhe chamarem drogado e o porem fora do emprego. Ninguém insulta os homossexuais, que têm as suas ruas e os seus bares mesmo ao lado da Red Light District.
Também são pessoas muito educadas e com muitos estudos e preocupam-se muito com o ambiente. É preciso saber que este país foi tirado ao mar e por isso eles têm que ter muito cuidado. A recolha dos lixos e a reciclagem é demais. Eles reciclam tudo e fazem cada obra de arte com os lixos que só vendo! (Ver fotografias no final). Cheguei a participar em marchas contra a construção dum centro comercial numa certa zona muito próxima da cidade. Eles levam a sério a conservação do ambiente.
Eu estava bem e não pensava sair dali tão cedo, quando aconteceu uma situação que eu não esperava. Um dia, estava on line com um cliente que falava um espanhol esquisito e quando acabou “o serviço”, recebi a mensagem: Maria de Lurdes, não achas que está na altura de voltar pra casa? A tua mãe está muito doente, ela vai morrer de desgosto se souber o que andas a fazer.
Fiquei gelada. Perguntei quem era e foi ainda pior. Era o meu primo Zé Maria. Dei-lhe o meu número de telemóvel e ficamos mais de uma hora a falar. Quando desligámos eu fartei-me de chorar e fiquei sem saber o que fazer.
No dia seguinte não trabalhei. Pus-me a fazer contas à vida. Estava fora do meu país há mais de seis anos, gostava da vida que levava e não me imaginava a fazer outra coisa. Que emprego ia eu arranjar se voltasse? A ganhar uns míseros 500 euros por mês, menos do que eu ganhava num bom dia na Holanda, para esconder quem eu era? Pensei, pensei. Fui ao banco onde tinha as minhas poupanças e investimentos e foi então que tomei a decisão. Com umas centenas de milhares de euros eu bem que podia vir para Portugal, montava um negócio… e talvez ainda pudesse chegar a tempo de ver a minha mãe com vida.
Uma semana depois, e depois de vários telefonemas ao meu primo, voltei para Portugal. Fiquei uns dias no Porto e só voltei à Guarda ao hospital onde a minha mãe acabou por falecer poucas horas depois de me ver, mas já sem conseguir falar comigo. É uma tristeza o sistema de saúde no nosso país. Os hospitais são sujos, velhos, os médicos antipáticos, as enfermeiras umas arrogantes. Ai que saudades tive da Holanda!
Nem pensava em voltar para a Guarda. Decidi ficar no Porto e recomeçar aí a minha vida. Montar um negócio? Tinha de ser de sexo, disfarçado de outra coisa qualquer porque aqui continuam a varrer o lixo pra baixo do tapete, que parece ser o único que nunca vai entrar em crise.
Abri um bar na Rua Escura. Tudo como manda a lei. Todas as condições de higiene e segurança, licença passada, publicidade nos jornais. Eu mesma recrutei as meninas. Ensinei-lhes tudo sobre atender clientes. Neste bar, aberto há mais de 7 anos, não se passa nada de ilegal. O que as meninas fazem depois é com elas. Eu sou a patroa, mas só no local de trabalho. Continuo com o meu site na Net e em breve vou entrar no negócio dos filmes pornográficos, só com adultos para adultos. Nada de crianças a fazer sexo, porque a pedofilia choca-me mesmo.
E foi assim a minha vida até há uns meses atrás. Um dia, estava eu ao balcão a beber um copo com um cliente, porque eu gosto de fazer conversa com eles, aprende-se muito sobre o ser humano e também muito sobre política, negócios, etc, porque quando eles bebem um copo a mais contam-nos tudo, e então o cliente, que por acaso era um professor, disse-me: Ó Vitória, tu devias era ir tirar o 12º ano nas Novas Oportunidades e depois ir pra Universidade. Pelo que sei da tua vida até te podiam dar logo um diploma de doutora em Gestão. No princípio fartei-me de rir e não levei aquilo muito a sério, mas numa outra noite em que ele lá voltou, perguntei-lhe: explica-me lá como é isso das novas oportunidades. E ele com muita paciência lá me explicou. E como eu não sou mulher de hesitar, quando meto uma coisa na cabeça faço-a, no dia seguinte dirigi-me a um Centro Novas Oportunidades que fica ali prós lados da Cedofeita e inscrevi-me. Chamaram-me há dois meses para me explicarem tudo, mas muita coisa eu já sabia. Quando me disseram: a Maria de Lurdes deve começar a escrever a história da sua vida, porque é por aí que começamos o processo, eu respondi: a minha história está aqui nesta pen, se quiser posso deixá-la já, só tenho de escrever esta entrevista.
E aqui estou eu e a minha história, pronta para mostrar que prostituta também é gente e pode vir a ser doutora. Sim, porque agora que me meti nisto, quero ir até terminar a Universidade. Só tenho pena de já não poder dar essa alegria à minha mãe. Mas o meu pai, se Deus o conservar, ainda há-de ter uma filha doutora. E se me der na cabeça ainda me candidato à política e vou para a assembleia da república, para dar o meu contributo pela legalização da prostituição neste país de paneleiros e hipócritas.
Porto, 22 de Outubro de 2008.
Maria de Lurdes Almeida
Histórias de Vida para o RVCC-NS
Sebastião Ribeiro (agricultor)
Vitória Ruas (prostituta)
Arlindo Moinas (pedreiro)
Nota: Estas histórias fazem parte de um desafio proposto à equipa técnico-pedagógica do RVCC.
Até agora, apenas Alice Marques e Ana Carvalho responderam ao desafio.
O desafio chama-se: Quem sabe escrever pode ensinar a escrever!
Alice Marques e Ana Carvalho, duas técnicas profissionais, puseram-se na pele de adultos imaginários, correspondendo a perfis que conhecem, de pessoas reais que procuram os CNO’s para fazer a certificação de nível secundário e propõem-nos histórias credíveis.
Alguns pedaços da minha vida
Por: Sebastião Ribeiro, agricultor, 55 anos.
Não sei como arranjei coragem para entrar nisto do RVCC. Aqui á uns anos comecei a ver anúncios da Judite de Sousa, do Carlos Queirós e daquela costureira do Porto Maria qualquer coisa, e percebi que eles também não tinham acabado o 12º ano. Primeiro pensei se eles com tão pouca escola chegaram onde chegaram, porque é que eu havia de satisfazer os caprichos das minhas filhas, que há mais de dois anos me andam a influir para ir acabar os estudos. Falei com elas e então explicaram-me que aqueles anúncios até estavam mal feitos porque as pessoas pensavam que eles não tinham estudado. Eu até achava piada, mas metia-me espécie. Bom, então percebi que aquilo que eles apareciam no anúncio era se eles não tivessem acabado. E pronto, decidi fazer mesmo o 12º ano por esta coisa que o governo do Sócrates, nem sei porque é que dizem tanto mal dele, agora criou que se chama as novas oportunidades. Fui lá à junta de freguezia de Campo Maior e enscrevi-me. Chamaram-me passado um mês e mandaram-me pra casa disseram-me para eu escrever sobre a minha vida e cá estou eu. Escrevi tudo à mão e depois foi a minha filha Graça, a mais velha que é doutora juíza em Almodôvar, que me passou isto pró computador mesmo com os erros que eu disse-lhe que as doutoras disseram que os filhos podem ajudar mas não corrijem os erros porque elas tem que se dão erros, porque eu de computadores não percebo nada.
A minha vida começa assim. Nasci em Campo Maior em 1953, os meus pais eram agricultores abastados mas ficaram sem nada quando foi o 25 de Abril porque tinham terras em poisio e vieram os comunistas e queriam roubar-lhe as terras. Eu era o filho mais velho, tinha feito o 5º ano da Escola Comercial a minha irmã Manuela tinha 10 anos e a Conceição 8, e o meu pai disse-me tens de deixar o emprego nas rações e ir tomar conta das terras senão os comunistas tiram-nos tudo. E eu deixei a escola, com grande pena minha porque queria muito ser engenheiro das pontes. Casei cá na terra com uma rapariga também com poucos estudos, fize-mos a nossa casinha aqui mesmo em Campo Maior e aqui tivemos as nossas duas filhas, a Graça que já falei e a Maria das Dores que é professora de Ciências em Évora.
As minhas filhas nunca se envergonharam de mim achava eu mas há uns tempos começaram a dizer-me pai tem que ir tirar o 12º ano agora nas oportunidades e foi assim como eu disse que cá vim parar.
Lá no Centro estava uma doutora muito bonita que nos esteve a mostrar uma lista de assuntos muito grande e chamava-lhe lista de competênsias. Eu sempre me considerei um agricultor competente porque nunca pedi um empréstimo ao banco, as minhas terras sempre deram boa produção de azeite, cortiça e muito boa fruta, melhor que os espanhóis que compraram uma herdade aqui ao lado da minha e nunca pedi um subesídio ao governo como muitos portugueses estão fazendo que até para arrancar as árvores pedem e que eu acho que são mas é uma cambada de malandros que não querem dar o corpo ao manifesto e mal vem uma rabanada de vento vão logo a correr pedir subesídios. Mas fazia-me espécie como é que eu podia ser um homem com estudos só por ser um agricultor de sucesso como agora se diz.
Bem quando eu vi aquela lista, apeteceu-me logo desistir. Cada palavrão que me parecia mais uma coisa pra quem queria ser doutor. Cheguei a casa e disse á minha mulher que já não voltava, mas ela ligou logo à Maria das Dores que veio correndo cá casa trouxe o computador ligado à Internet e passou horas a explicar-me o que era então as competências e como e que se mostravam. Fez-me uma lista e disse-me o pai quando estiver a escrever esteja sempre a olhar para esta lista pra ver se não se esquece de nada. E eu lá comecei a escrever esta história pois daqui a um mês vou lá voltar ao centro e não sou pessoa de não fazer o trabalho de casa.
Como eu já disse de computadores não percebo nada, mas tenho televisão, até tenho TV Cabo e gosto muito de ver os canais com filmes sobre animais, em casa temos telefone e quando fiz 50 anos as minhas filhas deram-me um telemóvel que eu já sei usar para mandar mensagens e graças a Deus temos todas as comodidades, frigorífico, fogão eléctrico, microondas, máquina de lavar roupa porque a minha Rosa tem bicos de papagaio e á muitos anos que não pode estar dobrada no tanque a lavar a roupa, a máquina de lavar loiça não faz tanta falta porque somos só os dois em casa, quando as filhas vêem e os netos elas é que lavam e como eu estava dizendo temos estas comodidades e eu sei ligar essas coisas todas e acho que isso faz parte lá dos sistemas técnicos. Ah também tenho carta de condução e com o meu carrito eu e a minha Rosa saímos muitas vezes até Évora e Badajoz agora ainda mais que vamos lá todas as semanas atestar o depósito que a gasolina é muito mais barata lá. E também conduzo o tractor e as máquinas todas de lavrar, gradar, ceifar, tudo é feito por mim e mais umas pessoas que eu contrato quando há muito trabalho e uma rapariga que se ajeita na contabilidade e que me faz todos os anos os impostos.
Agora tem andado por aqui uns engenheiros que dizem que vem ensinar a ter melhores colheitas onde é que já se viu rapazes e raparigas de mãos mimosas, que nunca pegaram numa enxada, pensando que podem vir ensinar o padre nosso ao vigário. O que eu sei é que muitos compadres que eles ensinaram deixaram de semear e agora estão a receber subesídios. Ninguém me tira da cabeça que o governo quer é vender isto tudo aos espanhóis, ou então quer que os portugueses comprem tudo aos chineses, até o leite, lá por causa dos contratos que eles assinam e ninguém percebe o que é. Há dias vi na televisão numa terra qualquer da França, uns agricultores chegarem a uma praça e despejarem camiões de fruta com tanta gente a passar fome, ó que mundo este.
Também me mandaram escrever sobre a minha saúde pois graças a Deus até agora tenho sido um homem cheio de saúde, só fui uma vez ao hospital de Portalegre a minha Rosa coitada é que não, passa a vida nos médicos e como tiraram o médico do centro cá da terra agora anda num particular e são rios de dinheiro todos os meses e ela sempre na mesma. Diz que não têm médicos, mas eu conheço até uns ucranianos que aqui andam trabalhando nas obras que diz que são médicos, porque é que não os põem a dar as consultas? Cá pra mim o governo é um bocado racista só porque eles vem doutros países acham que os diplomas deles não tem valor, pois eu acho que enquanto isto estiver assim o país não vai longe, porque eles são pessoas como nós que eu bem os vejo trabalhadores e sempre a poupar para voltarem pra sua terra ou pra trazerem as mulheres e os filhos pra cá. É a sina deles e também já foi a nossa que eu sei de muitos portugueses que foram por esse mundo fora procurar melhor vida por isso temos que ser uns prós outros hoje eles amanhã ou ontem nós, somos todos filhos de Deus e não ha razões pró governo não os ajudar até a ficarem por cá e serem médicos e engenheiros em vez de pedreiros e mulheres a dias porque vesse que são pessoas educadas.
E para acabar esta parte da minha história queria dizer que estou muito ralado com esta crise que agora falam ainda na 2ª feira estive ouvindo o prós e contras que é um programa que eu gosto muito porque informa bem mas às vezes adormeço. Não percebo porque é que os governos estão agora dando dinheiro aos bancos, mas não ficam com os bancos. Eu que sou do tempo da nacionalização da banca não consigo perceber e acho que o governo está usar o dinheiro dos nossos impostos para dar aos bancos e isso é um escândalo. Deus queira que os donos apanhando-se com o dinheiro no bolso não fujam pró Brasil, como é costume neste país onde há muita gente sem vergonha. Queria ver os meus netos crescerem e serem engenheiros e doutores. E já agora queria fazer o 12º e até já decidi que vou também fazer um curso de informática e comprar um computador porque se até o meu neto Diogo com 4 anos já mexe num será que o cota do avô não há-de ser capaz?
E pronto, assim termino o primeiro trabalho para o RVCC e cá estou aprontando-me pra fazer os outros.
Campo Maior, 22 de Outubro de 2008
Prostituta também é gente
Por: Vitória Ruas
O meu nome não é Vitória Ruas, mas Maria de Lurdes Almeida Pereira, como consta no meu bilhete de identidade. Nasci há 32 anos, numa pequena aldeia da Beira Alta, no distrito da Guarda, e os meus pais sonhavam para mim um futuro brilhante, doutora em qualquer coisa. Mas quando a cabeça não tem juízo… diz o ditado que o corpo é que paga e comigo foi mesmo assim.
Um dia o meu destino bateu à porta da escola. Estava eu no 11º ano, sem perder ano nenhum, muito boa aluna, com os meus 17 anos. Alta, morena, encorpada demais para a minha idade, com as hormonas em grande agitação, eu era uma bomba ambulante. Tínhamos saído duma aula de História, com a professora Célia, uma tipa fantástica, toda modernaça e com umas ideias muito avançadas. Eu e a minha colega Rita, como era cedo, fomos ao Café Albertino, onde costumávamos fazer tempo para o autocarro. Foi aí que vimos um homem, com muito bom aspecto, dos seus trinta e poucos anos, descer dum carrão e dirigir-se a nós de forma muito educada e convidando-nos para dar uma volta com ele. Ingénuas e encantadas das com o homem e o carro, aceitamos logo. Que mal podia haver?
Já estão a perceber onde é que esta ingenuidade nos levou. Quando demos por nós, estávamos a caminho de Espanha, porque o senhor Correia era afinal um angariador de “meninas”. No princípio ainda pensamos que ele só nos levava a um bar que há na estrada para Salamanca, e que não havia nada de mal nisso, afinal éramos já crescidas, saíamos à noite e íamos aos bares e de certo que ele nos ia trazer antes da noite. Mas não foi assim. Largou-nos num descampado, numa espécie de armazém, onde havia muitas outras raparigas, e um outro homem, a quem chamavam o “paizinho”. Foi ele que nos disse: vocês sabem ao que vêm?
Nós não sabíamos, mas por esta altura já começávamos a desconfiar que tínhamos sido raptadas para trabalhar num bar de alterne. A Rita começou a chorar e levou logo um par de tabefes, ali diante de toda a gente. Eu tentei acalmá-la e fui falar com o paizinho e disse-lhe: ao menos deixe-nos telefonar para casa, havemos de arranjar uma desculpa para não voltar hoje. Ele concordou e disse-me exactamente as palavras que devia dizer. Já lá vão 14 anos e lembro-me como se fosse hoje. Dizes à tua mãe que foram pra uma visita de estudo mas têm que ficar três dias.
Eu tremia toda quando disse isto a telefone. A minha mãe fartou-se de fazer perguntas, com que professor tinha ido, se a camioneta estava avariada, quando voltávamos, ameaçou ir à polícia, enfim, coisas normais de uma mãe. E eu ia repetindo tudo o que o paizinho me dizia. Penso que a minha mãe não ficou convencida, mas também já não era a primeira vez que eu não aparecia em casa.
Até hoje nunca cheguei a saber o que pensava porque só voltei a falar com ela um mês depois para lhe dizer: mãe, a verdade é que eu fugi de casa e estou a viver na Alemanha. Não vale a pena ir à polícia porque eu faço 18 anos daqui a uma semana e já não pode obrigar-me a voltar.
Devem estar curiosos por saber como é que eu arranjei coragem para isto. Pois é verdade. Naquela noite, duas das raparigas mais velhas, aproximaram-se de mim e da Rita e contaram-nos a sua história, não sei se verdadeira se falsa. Tinham vindo de livre vontade, trabalhavam num bar e uma delas, em 3 anos já tinha conseguido amealhar uma pequena fortuna e contava um dia poder ter o seu próprio negócio de “meninas”. Não sei porquê, mas aquela mulher, tão linda, tão cheirosa e bem vestida, convenceu-me. Fez-me pensar: que mal pode haver em beber uns copos com uns homens e ganhar dinheiro com isso? Afinal eu já tinha bebido tantos com colegas e tinha de os pagar! Convenci a Rita, que também não era lá muito certinha, e fizemos um pacto: ficávamos até conseguirmos juntar dinheiro para comprar um carro e voltar à Guarda como se tivéssemos estado emigradas uns tempos. Ela resistiu muito porque tinha um namorado, que era um grande parvalhão diga-se, mas ela gostava dele e sabia que ele nunca compreenderia isto e havia de pensar que ela se tinha tornado uma prostituta. Fiz-lhe ver que ela merecia melhor do que aquele tosco, ainda por cima ganzado, que lhe fazia a vida negra. A mãe dela tinha morrido quando ela era pequena e ela vivia com os avós, porque o pai tinha voltado a casar e a madrasta nunca a aceitou bem. Coitados dos avós. Morreram passados dois anos, sem saber o que tinha acontecido à neta.
Bem, voltando atrás, ficámos. Nessa noite não fomos “trabalhar”. O paizinho disse-nos que precisávamos dum “tratamento”, dum corte de cabelo e umas roupas próprias para o trabalho. No dia seguinte veio ao armazém uma senhora muito fina, com uma mala cheia de roupa e um homem que via-se mesmo que era gay com uma maleta cheia de apetrechos de cabeleireiro. Fez a cada uma um corte de cabelo demais, com madeixas e extensões. Experimentámos roupa e mais roupa, toda tão provocante, sentíamo-nos as mulheres mais lindas do mundo. E estávamos mesmo, até porque já éramos umas moças bem bonitas, mesmo sem “tratamento”.
Nessa noite, mudaram-nos para uma casa muito acolhedora, onde passámos a viver com mais 7 raparigas, todas muito bem postas e todas com o mesmo trabalho. Cada uma de nós começou nessa noite a fazer o “estágio”, como dizia o “paizinho”. Devíamos estar com as mais velhas, observar como faziam até estarmos prontas para atender um cliente. Este estágio durou um mês e eu e a Rita sempre convencidas de que o nosso trabalho era fingir que íamos beber uns copos com os clientes.
Quando passámos a”efectivas” é que percebemos que o mais importante daquele trabalho se passava fora do bar.
Ao fim duma semana eu já tinha dois clientes fixos com os quais fazia sexo no final da noite e que me pagavam por fora, em cada noite, o que eu demorava 6 meses a ganhar no bar.
A minha história como prostituta começa aqui. Um deles, um homem de que não posso revelar a identidade, dois meses depois de me conhecer, tirou-me da casa e levou-me a viver com ele. Eu tinha a ilusão de vir a ser uma espécie de primeira dama, mas a realidade foi outra. Seis meses depois de estar instalada num bom apartamento em Valladolid, a mulher dele descobriu-nos e ameaçou armar um escândalo que lhe destruiria a carreira. Ele, que afinal era um grande traste, obrigou-me a deixar o apartamento, e, numa noite, meteu-me no carro e levou-me até Madrid onde me largou nas ruas. E ali estava eu, a fazer 19 anos, largada nas ruas de Madrid, sem dinheiro e sem um tecto para me abrigar. Chorei muito, tive muito medo, dormi ao relento duas noites e depois de muito pensar, tomei uma decisão - iria fazer aquilo que melhor tinha aprendido no último ano, sexo. Ia ser uma puta.
Há zonas em Madrid onde as prostitutas são tantas que se atropelam umas às outras. Há de todas as raças e idades, mas felizmente para quem tem 19 anos e um corpinho de fazer inveja, não há desemprego para quem quer andar nas ruas.
Arranjei facilmente clientes e em menos de um mês já tinha um lugar decente para morar, que partilhava com uma ucraniana e uma russa. Mas andar nas ruas é um trabalho muito perigoso. Apanha-se de tudo, velhos tarados, novos frustrados, bêbados, homens de negócios, tudo…! As minhas companheiras de casa e das ruas, com quem falava em espanhol, porque elas já andavam por lá há uns anos, começaram a falar-me de países onde a prostituição era legal, onde havia sindicatos, assistência médica e toda a protecção de que precisam as mulheres da vida. Desde que ouvi contar isso eu não parava de pensar que o melhor era ir para um país desses, havia de me safar. E se bem o pensei melhor o fiz. Um dia, depois de ter estado com um cliente daqueles que os cães não querem, tomei a decisão: é hoje! Falei com a Lola (a ucraniana) e combinamos ir embora no dia seguinte. Holanda era o nosso sonho.
Arrumámos os nossos parcos haveres e fomos para o aeroporto. Ela era muito entendida nas coisas de computadores e por isso conseguimos comprar um bilhete para essa madrugada, num avião que saía às 4 da manhã. Ia começar outra aventura.
Duas horas depois estávamos na Holanda. A Lola, que na Holanda veio a chamar-se Maja, tinha um contacto de uma amiga, de modo que foi fácil arranjarmos alojamento provisório. Como tínhamos algum dinheiro, pagámos logo o aluguer do quarto por um mês, pois não sabíamos se era fácil ou difícil arranjar apartamento.
A Iliria, amiga da Maja, introduziu-nos no “ramo”. Avisou-nos logo que para sermos trabalhadoras do sexo em Amesterdão, teríamos que nos sindicalizar e colectar nas finanças. Eu nem queria acreditar no que ouvia: Passava de puta a trabalhadora do sexo, de explorada por homens a trabalhadora por conta própria.
Passados três dias já tínhamos os papéis em ordem e arranjamos lugar na Red Light District, a zona de prostituição legal na cidade. Nunca vi tanta trabalhadora do sexo junta, numa zona à volta duma Igreja que se chama Igreja das Mulheres. Eram novas, velhas, pretas, brancas, gordas, magras, de todas as partes do mundo, algumas estudantes universitárias que têm este trabalho para pagar os estudos. Mas há trabalho para todas. E o que se ganha num mês vale bem o sacrifício que é fazer sexo com alguns homens. Digo mesmo há trabalhos muito piores e muito mais mal pagos.
Muitas das raparigas que trabalham nesta cidade em que parece que nada é proibido, são muito cultas e foi com elas que comecei a ler livros que nunca pensei vir a ler e que me veio a ideia de ter um negócio: criar um site na Internet e trabalhar a partir de casa, porque há homens e mulheres que preferem fazer sexo sozinhos imaginando que estão com uma ou mais mulheres. E assim foi. Chamei um fotógrafo lá a casa, eu e duas amigas tirámos fotografias que pareciam da playboy, e criámos um serviço de “sexo on line”. Para este trabalho o mais importante é ter uma boa voz e saber falar muitas línguas, porque podemos estar on line com um cliente de qualquer nacionalidade. Por isso inscrevi-me numa escola de línguas onde aprendi Francês, Inglês e Alemão, para além do holandês que aprendi por viver na Holanda. Até ter o meu próprio site eu não tinha percebido quanto é que a Internet podia mudar a minha vida. Fiz também fotos para SMS com chamadas de valor acrescentado. Depressa passei a ser conhecida como a Vitória Virtual Woman. Durante 6 anos, fui dividindo o meu tempo entre o sexo virtual, por sms, videoconferência ou pelo msn, e o real, ganhei muito dinheiro, sobretudo com os homens que depois de fazerem sexo comigo on line ou por sms me queriam conhecer pessoalmente. Mas eu tinha prometido a mim mesma que nunca mais nenhum homem me havia de enganar e por isso nunca me deixei levar na cantiga de alguns que queriam tirar-me da vida e me ofereciam mundos e fundos.
Sempre com os meus impostos em dia e muito respeitada pelas colegas de trabalho cheguei a ser dirigente sindical e fui uma das organizadoras de um movimento de prostitutas que lutava pelo direito à reforma das trabalhadoras do sexo. Até foram usados vídeos meus numa exposição sobre a prostituição que esteve numa igreja durante dois meses e que se chamava Love to koop, que quer dizer Amor para vender.
Não há outro país igual à Holanda para se ser prostituta. Tem-se trabalho, respeito, assistência médica e só quem quiser é que tem chulo. Ninguém aceita fazer sexo sem preservativo, todas as semanas as mulheres têm consulta médica nos serviços do estado e assim se evitam as doenças como a Sida que é um flagelo nos países onde a prostituição não é legal, como o nosso, onde a maioria das pessoas querem tapar o sol com a peneira.
Na Holanda eles preocupam-se com tudo. As ruas de Amesterdão estão sempre cheias de turistas, que sujam tudo. Mas de madrugada há equipas de limpeza que deixam tudo num brinquinho.
As drogas para fumar são permitidas nos coffee shops e há muita gente que vai a este país só para ver as montras de prostitutas, ter sexo com umas e poder fumar haxixe ou marijuana sem medo de ser preso ou de lhe chamarem drogado e o porem fora do emprego. Ninguém insulta os homossexuais, que têm as suas ruas e os seus bares mesmo ao lado da Red Light District.
Também são pessoas muito educadas e com muitos estudos e preocupam-se muito com o ambiente. É preciso saber que este país foi tirado ao mar e por isso eles têm que ter muito cuidado. A recolha dos lixos e a reciclagem é demais. Eles reciclam tudo e fazem cada obra de arte com os lixos que só vendo! (Ver fotografias no final). Cheguei a participar em marchas contra a construção dum centro comercial numa certa zona muito próxima da cidade. Eles levam a sério a conservação do ambiente.
Eu estava bem e não pensava sair dali tão cedo, quando aconteceu uma situação que eu não esperava. Um dia, estava on line com um cliente que falava um espanhol esquisito e quando acabou “o serviço”, recebi a mensagem: Maria de Lurdes, não achas que está na altura de voltar pra casa? A tua mãe está muito doente, ela vai morrer de desgosto se souber o que andas a fazer.
Fiquei gelada. Perguntei quem era e foi ainda pior. Era o meu primo Zé Maria. Dei-lhe o meu número de telemóvel e ficamos mais de uma hora a falar. Quando desligámos eu fartei-me de chorar e fiquei sem saber o que fazer.
No dia seguinte não trabalhei. Pus-me a fazer contas à vida. Estava fora do meu país há mais de seis anos, gostava da vida que levava e não me imaginava a fazer outra coisa. Que emprego ia eu arranjar se voltasse? A ganhar uns míseros 500 euros por mês, menos do que eu ganhava num bom dia na Holanda, para esconder quem eu era? Pensei, pensei. Fui ao banco onde tinha as minhas poupanças e investimentos e foi então que tomei a decisão. Com umas centenas de milhares de euros eu bem que podia vir para Portugal, montava um negócio… e talvez ainda pudesse chegar a tempo de ver a minha mãe com vida.
Uma semana depois, e depois de vários telefonemas ao meu primo, voltei para Portugal. Fiquei uns dias no Porto e só voltei à Guarda ao hospital onde a minha mãe acabou por falecer poucas horas depois de me ver, mas já sem conseguir falar comigo. É uma tristeza o sistema de saúde no nosso país. Os hospitais são sujos, velhos, os médicos antipáticos, as enfermeiras umas arrogantes. Ai que saudades tive da Holanda!
Nem pensava em voltar para a Guarda. Decidi ficar no Porto e recomeçar aí a minha vida. Montar um negócio? Tinha de ser de sexo, disfarçado de outra coisa qualquer porque aqui continuam a varrer o lixo pra baixo do tapete, que parece ser o único que nunca vai entrar em crise.
Abri um bar na Rua Escura. Tudo como manda a lei. Todas as condições de higiene e segurança, licença passada, publicidade nos jornais. Eu mesma recrutei as meninas. Ensinei-lhes tudo sobre atender clientes. Neste bar, aberto há mais de 7 anos, não se passa nada de ilegal. O que as meninas fazem depois é com elas. Eu sou a patroa, mas só no local de trabalho. Continuo com o meu site na Net e em breve vou entrar no negócio dos filmes pornográficos, só com adultos para adultos. Nada de crianças a fazer sexo, porque a pedofilia choca-me mesmo.
E foi assim a minha vida até há uns meses atrás. Um dia, estava eu ao balcão a beber um copo com um cliente, porque eu gosto de fazer conversa com eles, aprende-se muito sobre o ser humano e também muito sobre política, negócios, etc, porque quando eles bebem um copo a mais contam-nos tudo, e então o cliente, que por acaso era um professor, disse-me: Ó Vitória, tu devias era ir tirar o 12º ano nas Novas Oportunidades e depois ir pra Universidade. Pelo que sei da tua vida até te podiam dar logo um diploma de doutora em Gestão. No princípio fartei-me de rir e não levei aquilo muito a sério, mas numa outra noite em que ele lá voltou, perguntei-lhe: explica-me lá como é isso das novas oportunidades. E ele com muita paciência lá me explicou. E como eu não sou mulher de hesitar, quando meto uma coisa na cabeça faço-a, no dia seguinte dirigi-me a um Centro Novas Oportunidades que fica ali prós lados da Cedofeita e inscrevi-me. Chamaram-me há dois meses para me explicarem tudo, mas muita coisa eu já sabia. Quando me disseram: a Maria de Lurdes deve começar a escrever a história da sua vida, porque é por aí que começamos o processo, eu respondi: a minha história está aqui nesta pen, se quiser posso deixá-la já, só tenho de escrever esta entrevista.
E aqui estou eu e a minha história, pronta para mostrar que prostituta também é gente e pode vir a ser doutora. Sim, porque agora que me meti nisto, quero ir até terminar a Universidade. Só tenho pena de já não poder dar essa alegria à minha mãe. Mas o meu pai, se Deus o conservar, ainda há-de ter uma filha doutora. E se me der na cabeça ainda me candidato à política e vou para a assembleia da república, para dar o meu contributo pela legalização da prostituição neste país de paneleiros e hipócritas.
Porto, 22 de Outubro de 2008.
Maria de Lurdes Almeida
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